HOLOBIONTE, OU O PRINCÍPIO CANIBAL

Holobionte (substantivo masculino): organismo hospedeiro que funciona graças a um sistema de simbioses integradas com múltiplos agentes, entre eles bactérias, fungos, etc. 

A relação entre mãe e filho/a/x foi, durante séculos, representada como uma ligação naturalmente afetiva por discursos culturais e religiosos de matriz antropocêntrica, que idealizam a experiência humana da maternidade e sublimam o “instinto maternal”, numa perspetiva explicitamente especista. Neste contexto, a imagem da Madonna com a criança ao colo tornou-se um ícone da tradição visual judaico-cristã que contém um conjunto de pressupostos morais sobre a maternidade, intimamente ligados à família nuclear heteronormativa como modelo de organização social predominante.

Estudos recentes nos campos da genética e da biologia evolutiva vieram revelar que a convivência entre progenitora e feto humanxs é, à semelhança de outras espécies, tudo menos pacífica. São vários os processos bioquímicos à escala celular que não só tornam possível a gestação, mas que moldam, desde as primeiras etapas de desenvolvimento do embrião, uma gravidez tensa e negociada, uma espécie de “destructive business” fágica que inevitavelmente transforma o território invadido que é o corpo gestante. Ao mesmo tempo, teorias pioneiras de Lynn Margulis e James Lovelock (entre outros) sobre a omnipresença da simbiose e da cooperação nos ecossistemas terrestres abrem perspetivas radicalmente integracionistas e não-hierárquicas sobre o próprio corpo grávido, enquanto mais um exemplo de Holobionte – sistema complexo e integrado de relações entre múltiplos seres vivos - em continuidade biológica com muitos outros.

Holobionte, ou o Princípio Canibal é uma instalação multimédia e interespécie, ativada por duas performers em interação próxima com o público. Convocando estas recentes descobertas e teorias científicas e um universo sci-fi feminista, este trabalho procura resgatar a relação entre progenitora-filho/a/x dos discursos patriarcais, religiosos e culturais que constituem a narrativa hegemónica sobre a maternidade, perspetivando-a, ao invés, como mais um complexo fenómeno de convivência no seio do Holobionte.

Holobionte, ou o Princípio Canibal foi concebido para espaços não convencionais como, por exemplo, contextos museológicos e instituições de divulgação científica.

 

 

ESTREIA | 8-11 DEZEMBRO 2022
Laboratório Ferreira da Silva (Reitoria da Universidade do Porto)

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Concepção, texto e performance | Camilla Morello e Maria Inês Marques
Concepção cénica | Anabela Moreira
Execução cénica | Cristóvão Neto
Música e desenho de som | Rui Lima Sérgio Martins
Desenho de luz | Tiago Silva
Vídeo | Fábio Coelho
Direção técnica | Luísa Osório
Consultoria científica | Ana Corrêa
Produção
Mário Sarmento Oliveira

Uma produção PLATAFORMA UMA
com o apoio da Universidade do Porto
Co-produção no âmbito do programa Reclamar Tempo 2021/22 do Campus Paulo Cunha e Silva
Apoio às residências DEVIR/CAPa, Companhia Instável Campus Paulo Cunha e Silva

Projeto financiado pela República Portuguesa | Cultura - DIreção-Geral das Artes

 

"Is there something inherently queer about pregnancy itself, insofar as it profoundly alters one’s “normal” state, and occasions a radical intimacy with—and radical alienation from—one’s body?" - Maggie Nelson

"Even in full recognition of the sense of the sublime that people experience in gestating, it is remarkable that there isn’t more consistent support for research into alleviating the problem of pregnancy" - Sophie Lewis

"Placental cells rampaged through surrounding tissues, slaughtering everything in their path as they hunted for arteries to sate their thirst for nutrients. It’s no accident that many of the same genes active in embryonic development have been implicated in cancer" - Suzanne Sadedin


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