DISTÂNCIA DE SEGURANÇA

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Uma pesquisa de Joana Magalhães / desenvolvida durante o ano de 2022

How deep does deep ecology want to go? In a truly deep green world, the idea of Nature will have disappeared in a puff of smoke, as nonhuman beings swim into view. Then comes the next step. We must deal with the idea of distance itself. If we try to get rid of distance too fast, in our rush to join the nonhuman, we will end up caught in our own prejudice, our concept of distance, our concept of “them”. Hanging out in the distance may be the surest way of relating to the nonhumans. 


-Timothy Morton, Ecology without Nature


DISTÂNCIA DE SEGURANÇA divide-se numa instalação e num espetáculo homónimos.

 INSTALAÇÃO

A instalação explora a ideia de safe room ou panic room, designadamente uma sala tipicamente instalada para providenciar um abrigo seguro para os seus habitantes em caso de invasão, tornado, ataque terrorista ou outro qualquer tipo de ameaça. Esta sala propõe conviver, de forma segura, com um dos “outros” mais temido - o escuro, aka negro, aka matéria negra, aka águas profundas, aka morte. Baseado nas teorias de Timothy Morton sobre dark ecology e prismatic ecology e no seu mais recente livro Spacecraft,  Distância de segurança mete-nos dentro da MESH, i.e., em relação direta com as realidades não-humanas, seres abissais que habitam o escuro, para dialogar sensualmente com ele. A instalação propõe aos visitantes, munidos de headphones, uma imersão espacial e sonora no escuro e uma experiência sensual com esta matéria viva. O escuro como objeto mas também como moldura, como símbolo e ontologia. Como imperativo para ver e ouvir melhor.

 

 

FICHA ARTÍSTICA

Criação e Conceção: Joana Magalhães
Cenografia: Catarina Barros
Animais: Stephane Alberto
Composição musical e desenho de som: Henrique Apolinário
Apoio ao Som: Rodrigo Malvar
Desenho de luz: Cárin Geada
Montagem e Operação de Luz: Daniel Vasques
Design gráfico: Gil Mac
Direção de Produção: Ana Lopes
Projeto financiado por: República Portuguesa – Cultura |
DGArtes – Direção Geral das Artes e Bolsa Self-Mistake

Apoio: CRL - Central Elétrica e Plataforma UMA
Classificação Etária: M/16

 

     

 

PERFORMANCE

DISTÂNCIA DE SEGURANÇA é um monólogo em seis atos para uma taxidermista no interior de uma baleia. A narrativa desenvolve-se a partir do gesto da personagem principal, que vai calibrando as medidas de distância e de segurança no decorrer do espetáculo, adaptando-as a contextos em que a oscilação entre próximo e distante são barómetro de sobrevivência e de exercício de poder. Contextos que geram os seguintes capítulos estruturadores do discurso:

CAPÍTULOS

  1. Mapas
  2. Sobrevivencialismo
  3. Caça e Domesticação
  4. Colonização
  5. Individuação
  6. Ecologia




ESTREIA: JUN 2023


#morethandeep#entre#desconhecido#perigo#cair

     

 

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ATÉ AS MEDUSAS (QUE NÃO TÊM CÉREBRO), DORMEM 


"A taxidermia não lida com a ideia de ressurreição, mas antes com a de eternidade. E para tal o animal tem de estar morto. Morto mas não desaparecido, numa homenagem ou violação à natureza, uma tentativa do homem contornar a questão da vida e morte”(...) "Sem músculos, ossos, sangue; modelado em poliuretano e gesso, montado em bases metálicas, coberto com a única coisa orgânica que lhe resta : a pele."

Mariana Lopes, fotógrafa, aquando da sua exposição de fotografia “Limbo”, sobre taxidermia ou sobre “quando os animais páram no tempo”

NÃO QUERER ACORDAR, ACONTECE A TODOS. UMA PREGUIÇA NA ESPINHA É

UM PESO NOS OLHOS.

 

MAPAS, ILHAS, COLONIZAÇÃO E ECOLOGIA


"(...) Foi a globalização que deu uma nova definição à continentalidade contra a toda a insularidade. É preciso escolher pensar no mundo como um continente ou como um arquipélago."

" (…) Colonizar é brutalizar. Brutalizar no regime colonial é introduzir sistematicamente a diferença na aparência e na cosmética do corpo, na carne, nos nervos, nos órgãos e consequentemente na própria estrutura da fantasia. É dividido tudo, inclusive o olhar. É, por fim, estabelecer uma ruptura entre o que se vê em si e para si, e o que só deve aparecer no campo de visão do outro, isto é, um corpo convocado para sustentar um prazer que o ultrapassa e que não é necessariamente o seu. “


K como Kolónia, Marie-José Mondzain

SONHOS DE PORCELANA BRANCA

A violet-black ecology hovers in the bathypelagic, abyssopelagic, and hadal zones, the three regions of the deep seas, one thousand meters down and much deeper, where sunlight cannot descend. The deep seas epitomize how most ocean waters exist beyond state borders, legal protection, and cultural imaginaries.

A violet-black ecology would attempt to understand the water of the abyssal zone as something rather than nothing, as substance rather than background, as a significant part of the composition. In the depths, millions of light-creating creatures dramatize a multitude of species-specific ways of being, communicating, surviving, and seducing.

- Stacy Alaimo, Violet-Black in Prismatic Ecology - Ecotheory beyond Green

THE SHADOW WHOSE PREY, THE HUNTER BECOMES

"A ideia de distância assume sempre a existência de dois pontos. Mesmo quando a distância é nula, esta é-o para dois pontos coincidentes. É formalizada e generalizada pela matemática através do conceito de métrica. Um espaço onde há uma distância ou métrica definida é chamado de espaço métrico.” - Wikipedia

A pandemia veio acelerar uma série de epifenómenos, entre eles a já chamada “primeira catástrofe mundial da era digital” - o desnortear do próximo e do distante (Cachopo,2020). Evidenciou algumas distâncias/ assimetrias. Veio criar outras. A prova física de confinamento foi tão ou mais sentida pelo corpo como pela psyche. Ao mesmo tempo que lidámos com a diminuição da profundidade de campo, falhou-nos o horizonte, problema não só de percepção mas de falta de imaginação. A “remediação digital”, a “segurança” e os perigos que comportaram as atividades humanas modernas com a criação de novos monstros - maravilhas da simbiose mas terríficas ameaças da disfunção climática - como os define Anna Tsing foram questões que nos rasgaram e que trouxeram o conceito de distância para um ponto paradoxal que evidencia os dois sentidos do entanglement: vida e perigo, aproximação e distância.

Distância de segurança surge do diálogo que me interessou estabelecer entre as distâncias mínimas aconselhadas pela DGS e o encurtar das distâncias entre humanos e animais selvagens que se diz ter estado na origem da crise pandémica. Fixei-me num conceito que ouvi repetidamente nos últimos tempos e que subitamente se tornou parte do léxico comum - o de distância de segurança - para o problematizar e trazer a debate as formas como o "outro’ é constituído, questionando as estreitas relações de poder que se estabelecem no espaço [entre], quer [entre] humanos ou não-humanos. Propus-me partir destas duas noções - distância e segurança - para as aplicar aos contextos em que a oscilação entre próximo e distante se tornam factor de sobrevivência e de exercício de poder de um sobre um outro. Contextos que geram os seguintes capítulos estruturadores da perfomance a apresentar: 1. Mapas, 2. Sobrevivencialismo, 3. Caça e Domesticação, 4. Colonização, 5. Individuação e 6. Ecologia.

Joana Magalhães

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