Missed-en-abîme

Estudos para uma performance sobre a invisibilidade /
Rogério Nuno Costa 

(1917-1921)
 
 
Avant-Prop’s

Imagem de capa e fundo de © Jani Nummela


 

O diário textual-visual-sonoro que aqui apresento, com o sub-título (oculto) ‘Psicobiografia de um Herói Perdedor’, parte de uma reescrita leviana, e levianamente apropriada, do texto ‘O Jovem Tombado’, que Enrique Vila-Matas publicou no El País no dia 10 de Março de 2012. Também são convocados ‘O Livro do Joaquim’ de Daniel Faria (Quasi Edições, 2007), ‘Um Aprazível Suicídio em Grupo’ de Arto Paasilinna (Relógio d’Água, 2010), e ainda excertos dispersos de textos que ficaram à porta de algumas performances (a-)teatrais que escrevi e apresentei entre 1999 e 2009. Inadvertidamente, usei também pensamentos (de minha autoria, de autoria incerta/não anotada, ou mistura de ambos) que fui deixando em cadernos de notas virtuais ao longo dos últimos 10 anos, para além de conversas que tive com Amigos, citadas de cor e sem autorização. Um auto-infligido revisionismo histórico/histérico, para me situar, e a seguir, seguir. Por último, serviu de inspiração geral à redação do texto o visionamento constante, em ideia e em retina, do ‘Anémic Cinéma’ de Marcel Duchamp (1926). O diário divide-se em quatro tomos/todos, dois à beira do precipício (aP, 99-09), dois em queda espiral no abismo (dP, 10-19), cada um acompanhado por um retrato do Herói Perdedor, fotografado e (artificialmente) animado em três minutos pelo artista visual Jani Nummela, que também compôs as peças sonoras que poderão ser escutadas durante a leitura. Este exercício é a bande-annonce de uma performance por vir, resultado de uma investigação de 5 anos em torno da tríade Arte—História—Solidão. Terá estreia em Setembro de 2021 no ciclo “O Museu como Performance”, no Museu de Serralves.


Mais info: www.rogerionunocosta.com/missed_en_abime


Agradecimentos:

João Pedro Azul / Flanzine (primeira publicação do texto, em 2020), Jani Nummela, Pie Kär, Graça dos Santos, Ana Paixão, Cité International Universitaire de Paris . Maison du Portugal, Parfums de Lisbonne, Inês Carvalho e Lemos, Andreia Coutinho, Maribel Mendes Sobreira, Campus Paulo Cunha e Silva, Cátia Pinheiro, José Nunes, Museu Coleção Berardo (Ana Rito e Rita Lougares), Aalto University

 

 

Todo (4) e último


Helsínquia / Agosto 2021

 


Azars Poetica (4)

Saiu o tiro pela culatra ao canhão ocidental. Ainda não aconteceu, mas vai acontecer, logo, já aconteceu. Literatura.

  

O nosso perdedor é finalmente dado como perdido. Demorou a ser encontrado na sua própria infinitude. Simplesmente porque existia num movimento perpétuo de afastamento em relação a um passado que ele achava ser glorioso. Não parou, por fim. Foi parado. Pela gravidade própria da Vida. Entre aspas. Não há nada de mais claramente invisível do que a perdição. Depois de tanta recusa em alistar-se na rebelião das gentes adiadas (ibid. ibid. ibid. ibid.), a telenovela da vida real assombra-o, por fim. Afinal, não há salvação possível, porque não há problema, porque aquilo de que fugia não era mais que sombra. Afinal não era a agressividade da fuga, mas a adaptabilidade da permanência, da imanência desse corpo, imóvel, pregado ao chão na linha-recta-que-na-verdade-é-círculo, ela a que foge desenfreada, não ele, dele! Afinal não era a magia a acontecer fora da zona de conforto, não por ser verdade (ou mentira), mas por se impor verdade (ou mentira). Perdidos em abismo, todos, afinal. Que até podemos encontrar a pseudo-salvação ao “sairmos para fora” da caixa, mas, ao fazê-lo, outra caixa se abre, em fogo, à nossa frente. Mais vale dizer que não há solução, ou então “voltar para dentro”. A caixa está sempre de janela aberta à nossa espera. Que se calhar, para escaparmos a um lugar, O melhor é deixarmo-nos ficar nele.

O imobilismo do nosso perdedor atrai-nos hoje mais do que nunca. Porque será? Ele continua a ir-se embora, qual poeta maldito. E o ecrã a enviar mensagens inauditas, em direção à janela aberta para o confinamento. You’re simply the best’a, grita aos abutres que passam.

 

O futuro é agora. É um fui’turo. Irrespirável. Que az’ar do tempo este, hein?… Dentro da caixinha etiquetada, o perdedor caminha mais devagar do que nunca. Olha para os acontecimentos acabados de acontecer, em catadupa, um a seguir ao outro, em escala rotativa e circular, em escada descendo nua a sua própria esquartejada exatidão. Cópia da cópia da cópia da cópia da cópia da cópia da cópia do original. É quando deixa de vislumbrar o momento em que disse, pomposo, Fui eu que copiei primeiro!, que se apercebe que o Fim já não é eminente, é existência corpórea e entranhada. Já não é a Vida a passar-lhe debaixo dos pés, por entre os dedos, a soprar-lhe a derme com promessas de conclusão. É agora a Vida Outra, escarnecendo, grotesca, a abraçá-lo por trás. A roupa queimada. Os calcanhares em sangue. E o tempo de quem nada faz, que passa muito mais depressa que o tempo dos outros que tudo fazem, agiganta-se agora incomensuravelmente, penoso e distante. Recorda os Amigos que o ensinaram, ao longo do funil invertido que foi a sua vida, que o que dói às aves não é o serem atingidas, mas que, uma vez atingidas, o caçador não repare na sua queda, encontrando-se com Daniel Faria. Como o herói Oblómov, cujas ações são ausentes delas mesmas, e quando parece que algo se vai passar, constatamos que é só a vida a passar, ao lado dele, ao lado da história, encontrando-se com Goncharov apresentado por Vila-Matas (ibid. ibid. ibid. ibid. ibid.)

Em Finlandês, diz-se sisu. Faz bem aos dentes.

Lá fora, os fofos continuam a salvar-se. A dar win! como se não houvesse amanhã. Peluches dentro de uma máquina de tortura; todos ao molho e fé nos estudos de performance. Mete-se a moeda e tenta-se caçar; ou sai nada, ou sai o mesmo. Tão fofos… De certeza que vão ler o testamento e borrar a letra de lágrimas artificiais, enquanto degustam as redundâncias que tanto adoram, como gastronomia molecular, pensamento quântico, arte social ou opções conscientes. Lá fora, continuam, impávidos, a subir para cima, a entrar para dentro, a voltar para trás e a repetir de novo. A sobrevivência do mais cor pastel. O bronqueamento da História. Liberté, Égalité, Objet Aidé grafitado nas lonas que se estendem, qual roupa a secar, que seca!, nas fachadas dos edifícios reais.


Já o perdedor não é. Também não será. O perdedor foi. Disse Não, dormiu sempre 8 horas, evitou o multitasking, assassinou a coruja, fez imensas paragens higiénicas, respeitou a velocidade da atenção, passou tempo a admirar a natureza, mexeu-se para oxigenar as clavículas, descansou em períodos profiláticos de tempo, ora sim, ora não, só para enganar a fama, cortou o texto, contou o espaço para não ter que medir o tempo, criou rotinas para estar sempre a começar, que depois substituiu por rotinas para estar sempre a evitar terminar, que depois substituiu por rotinas para estar sempre, jogou xadrez contra o escuro, reciclou tudo o que podia reciclar, nomeadamente a própria ideia de reciclagem, queimou gordura, praticou exercício bioquímico, dançou um slow, dedicou-se à slow cooking, enrolou cigarros com mortalhas slow burning, motherfucker, burning, e acreditou. Podem apontar-lhe todas as misérias, mas o perdedor acredita sempre. E sempremente. É um fugi’dor. 

E foi assim que o nosso perdedor passou ao lado da sua própria história. Foi um flashback que lhe deu:

Prostra-se em frente ao ecrã, olhos na ponta dos dedos, a boca semi-aberta de meio-pasmo, e tecla Estar apaixonado é sentir o sol a bater dos dois lados. Ainda pensa retocar o fraseado, mas é acometido por um surto de ódio à primeira vista, uma sensação de insensatez, um incomensurável gemido de meio-terror, meio-engasgo. Levanta-se num ímpeto e questiona-se Serei capaz? Deseja evocar o que trans-vê e projetá-lo em palavras caleidoscópicas. O funil é o texto, já os morfemas trans-lúcidos que se projetam à velocidade da luz de presença não são mais do que notas de rodapé. À mão. Como areia nos dedos. Existem justamente porque são invisíveis. Meio-existem. Parece que se deixou ficar prostrado em frente ao ecrã, ainda. Qual fantasma-jet-lag. Isto, diz ele, é uma projeção. Uma dor adiada.

 
Assina, enquanto anda para trás:

Rrose Sélamort

(clicar aqui: clicar, para terminar de vez) 

 


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Todo (3)


Porto-Lisboa / Julho 2021

 

Tal como Oblómov, o nosso perdedor permanece tombado. O ecrã luminescente titubeia um sonido microscopicamente estridente. Vêem-no como uma alma feliz, romantizando a sua aversão ao calendário, ao carimbo, à assinatura digital, ao cartão de embarque, à carta de recomendação. Mais uma das suas desgraças; nem não-ser o deixam! Canta, devagarinho e a meia-voz, um sinuoso Odelay, como que a chorar An open road where I can breathe Where the lowest low is calling to me I can pull myself back up back down Stuck together like a readymade. Abre a boca para deixar entrar o ar que falta, fechando And my bags are waiting In the next life. (Beck’ett, 1995)

 

Não é feliz. Vila-Matas acha que todos gostaríamos de ser oblomovistas. Que tudo o que fazemos, fazemo-lo numa tentativa vã de recuperar um qualquer paraíso perdido. Que todos procuramos paz e descanso. Que lá no fundo do abismo, todos queremos morrer. 1995. O nosso herói consegue levantar-se, para não rir. Aproxima-se do tabuleiro, como um sem-abrigo feio, sujo e escanzelado, a abeirar-se da passadeira vermelha no dia dos globos d’ouro (e d’incenso, e d’mirra, e d’pimenta, e d’canela, e d’açúcar...), a pedir ao locutor de continuidade que o deixe ir embora, que lhe estão a pisar a cauda do vestido roubado e ele não consegue mexer-se, que não o deixam entrar mas também não o deixam sair, que vive acima das suas possibilidades conceptuais, que o que faz não é, mas que o que faz pode ser, que o seu devir é dever. Para sempre. Borra-se de vergonha, sangue no tapete, quadrado vermelho em fundo vermelho, um desastre... 

 

E assim o nosso perdedor vai passando ao lado da sua própria história. Recorda os Amigos que o ensinaram, ao longo do funil invertido que tem sido a sua vida, que o trabalho é sobre nada. Convoca Beckett e Duchamp, pacientes zero, exímios perdedores na arte do xadrez monocromático da vida, corrigindo É nada. Joga para nada, porque na verdade já terminou. Noves fora. Pardais ao ninho. Tanto dá até que fura. Mas não se vê. Que o futuro é um pro-verbo. Não me perguntem, por conseguinte, sobre o que é o meu trabalho. Que o trabalho dele é sobre nada. Não serve de/para nada. Se lhe quiserem perguntar algo que possa ser útil, É, não é?, perguntem-lhe sobre o que é o seu descanso. O nosso perdedor garante-vos a mesma resposta, mas diferente. Pensa nestas coisas e sorri, com pena do seu próprio adágio. O meu descanso, é sobre quê? Anota no caderninho dos torturiais, para mais tarde re-acordar.


E diz não.

Diz nunca.

Diz nunca mais.

Diz a pós-verdade a mentir.

 

Repete-se incondicionalmente. Cai sempre no mesmo buraco. O que ele próprio abriu, nomeou, regulou e sinalizou. Já leu a bula tantas vezes quantas as batidas do seu coração esmagado e no entanto passa sempre por cima da mesma linha. Esquece-se. Ou então desvia-se. Venha o leitor e escolha. Lá vai lendo os comentários aos temas quentes do momento com a maior das atenções, ficando sempre com aquela sensação que ocorre quando perguntamos à senhora do café de que é a sopa do dia e ela, invariavelmente, nos responde que É de legumes. O perdedor não é má pessoa; até tem amigos que não… 

Segue em frente, agora, mas sempre olhando para trás. A vã-recta-guarda de mandar no seu próprio destino… Caminha devagar para não bater com as costas na madeira. Às vezes é acometido por instantes breves de clarividência, quando se apercebe que a linha que percorre e que parece recta é na verdade uma micro-parte (terrorista) da grande viagem de circumnegação que anti-heroicamente se aventurou a empreender. Para trás, e em círculo. Sem correção retroativa da Real’Idade. Só descalabro e imensidão. A verdade é apenas uma desculpa para a falta de imaginação. LOLa. Age, e talvez tenhas jantar; fica à espera, e talvez sejas tu o jantar. Enrola os olhos para trás, como se quisesse finalmente pôr a vista no Futuro. Nesta galáxia, existe uma probabilidade matemática que aponta para cerca de 3 milhões de planetas exatamente iguais à Terra. E no Universo inteiro, cerca de três mil milhões de galáxias exatamente iguais a esta. Contudo, a mecânica quântica só consegue conceber a existência de um doppelgänger para cada um de nós. Para-


 

Azars Poetica (3)

Reza a lenda, de joelhos e com imaculada devoção aos Estudos Clássicos Ocidentais, que o artesão Perilo de Atenas terá sido o primeiro a ser assado no horripilante Touro de Bronze, máquina de tortura por ele inventada para executar criminosos. Ao apresentar a criação a Fálaris de Agrigento, seu tirano, patrono, comissário, curador, co-financiador, benfeitor, Perilo foi sadicamente convidado a servir de cobaia para demonstrar o bom funcionamento da máquina. Morreu uma morte horrenda, e original. Reza outra lenda que todos os que vieram a ser executados no Touro de Bronze seriam igualmente cobaias. A fazer de criminosos. Arte.

 

 

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Todo (2)


Paris / Julho 2021

 

Monotonia.

Silêncio.

Calma.

Feitiçaria.

 

Se a existência é apenas uma incessante despedida de si mesma, sobre a sua fuga plana constantemente a questão: “Quando é que se vive?”. (ibid. ibid. ibid.) 


Continua ali. Aqui. Dedica-se, por falta de materiais de corte mais contundentes, às anti-tarefas patafísicas de todos os dias: reescrita dramática de listas que se confundem com tabelas de pontuação, OCD cosmética, toda a sorte de gincanas masturbatórias, este solilóquio. Às vezes ladra para o ecrã que acidentalmente decide levantar a ponta do screensaver, revelando especulações de mundos por viver. Parece que acorda para a Vida, momentaneamente, esquecendo-se que a vida é placebo, e a morte efeito secundário. Parece que se ri das suas próprias piadas, mas na verdade está tão-só a correr de medo para fora do palco, esquecendo-se que os bastidores se desvelam, à mostra, vão nus. O negativo da Morte, outra vez. Queda a pique. Stand-down comedy. A palavra inconseguimento como a maior conquista da desumanidade after-Kant-after-Duchamp. Reafirma, em mantra projetual, que em tudo há sempre mais do que só um.

 

Ri-se, sem se aperceber que acabou de perfurar, na hirta carne que é a sua, mais um milímetro micro-terrorista de impassividade, um milímetro micro-terrorista mais fundo. E mais dor. 

 

E assim o nosso perdedor vai passando ao lado da sua própria história. Recorda os Amigos que o ensinaram, ao longo do funil invertido que tem sido a sua vida, que nunca devemos partir das boas coisas velhas, mas antes das más coisas novas. Repetindo, já sabe o texto de cor, que É este um caminho de destroços e cinza, um vislumbre de não-caminho, porque me leva aonde eu já estou. Aqui. Já terá anunciado todas as différences e todas as répétitions e ainda assim não sabe se consegue conseguir. Uma dormente espera entre dois impasses fenomenológicos. Um xadrez branco em fundo branco ou preto em fundo preto. E no meio: vida, morte, arte, linguagem, existência, negligência, desaparecimento, história, esquecimento, ignorância e solidão. Para nada. Como no Endgame, onde se joga para empatar. Para nada acontecer. Ou para confirmar o que já se sabe. O mais sumptuoso veneno do nosso perdedor, a mal da verdade... Esse aborrecimento do empate, que é técnico e também é estético, com o ético dentro do estético trespassado pelo técnico na era da sua reprodutibilidade telecinética. O nosso perdedor joga na mesma equipa que Os Outros, mas empata nas ligas todas, desligado de tudo. Mais valia perder, fazendo justiça ao nome. Mas não. Saboreia assim o aroma a pastilha eláááááástica de cada uma das sílabas da palavra pós - mo - der - ni - da - de. Que nostalgia. Que silêncio. Que calma. Etc. Mais valia perder.

 

Aquiesce. Suspira ao de leve. Corpo pesado. É do Minho, como o Daniel, mas já não sabe para onde se há-de Virar:


Isto.

Sou.

Eu.

A.

Encher.

Chouriços.

 

Buying time, diriam os seus camaradas mais letrados (em sentido figurão: que dão o litro pelo não lido). Tudo, todos, muito bem empacotados, sem ranhuras, sem espaços por preencher, sem pedras na engrenagem, sem hesitações. Intensificadores de sabor, muitos. Emulsificantes, aos pontapés. Anti-oxidantes, obrigatórios. Que quem tem preguiça nas pernas, ganha ferrugem nos dentes. E a preguiça faz abortar a glória. E não lava a cabeça. E, se a lava, não se penteia. Que não há sábado sem sol, nem domingo sem missa, nem segunda sem preguiça. E contra isso há que lutar, com unhas e dentes e cabelos e pedaços de pele e sangue cuspido e ranho largado ao telefone, que o troféu não se alevanta sozinho, ó barões. Que se tem preguiça o lavrador, comem-lhe os ratos o melhor. E assim por diante, até desaparecermos no escuro do ponto (de fuga) final. Fig. Pop.

 

Compram tempo ao desbarato, conclui.

E que barato que ele é, o tempo. É quase de graça, que graça. Expira.

 

Senta-se. Já o fez mais vezes desde que isto começou, mas só agora se percebe que o faz para que o possamos ler. Enche-se de ar no peito para barafustar que O problema não é haver um lado que vocês escolhem e assumem e defendem e exibem com orgulho desmesurado. O problema é esse lado ser sempre, sem excepção, o lado para onde dormis melhor. Enquanto esse vosso lado se apresentar assim, confortavelmente unilateral, então esse vosso lado é uma merda. Outra vez em pé. Rabo no meio das pernas. As mãos a tremelicar. Volta a sentar-se, agora mais reclinado, quase a vergar. Mas não colapsa. Murmura Não, não, não, não, não..., enquanto desliza suavemente até ao chão. É aí, no terrível micro-cosmos que separa a boca do precipício, que ele se encontra e se depara. A inevitável descida — ele é ele. Está nele. E não há cura para isso.

 

Azars Poetica (2)

Wan Hu, um oficial Chinês do século XVI, terá tentado lançar-se no espaço sideral sentado numa cadeira artilhada com 47 foguetes. No dia da grande viagem, os foguetes explodem e a cadeira não levanta voo. Quer Wan Hu quer a cadeira nunca mais foram vistos. Evaporaram-se sem deixar rasto. Performance.

 

A Arte Negativa do Não, a manchada de plasma, a intoxicada pelo carbono14 que a própria meticulosamente testou no laboratório de criação, a sem-futuro, a de/do-futuro, enfim, a Arte, é a arte de saber quando uma peça de xadrez é mais valiosa que as restantes, e então, nesse exato momento, estar disposto a sacrificá-la. É no vazio criado pela perda do que é mais precioso que a oportunidade surge, a influência é maximizada, e o desejo se torna destino. Por exemplo: neste tabuleiro, a peça mais valiosa é o Compromisso.


(5 segundos para observar o tabuleiro)


Logo, para o jogo ser ganho (em sentido figurão: para o nosso perdedor poder dizer Cheque: mata! e seguir com o seu vagaroso desvanecimento), o Compromisso terá que ser sacrificado.

 

 

 

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Todo (1)


Helsínquia / Junho 2021


Prostrou-se em frente ao ecrã, olhos na ponta dos dedos, a boca semi-aberta de meio-pasmo, e teclou Estar apaixonado é sentir o sol a bater dos dois lados. Ainda pensou retocar o fraseado, mas foi acometido por um surto de ódio à primeira vista, uma sensação de insensatez, um incomensurável gemido de meio-terror, meio-engasgo. Levantou-se num ímpeto e retorquiu Isto é desprovido de sentido, mas isto tem uma boca, e é bonita, e sorri. Gostaria de ter ficado mais tempo a desvariar, mas apercebeu-se que existe um futuro brilhante à sua frente, ainda que se esboroe diariamente por entre as dobras do espaço-tempo em combustão. Indaga-se se será capaz de o continuar a efabular, o futuro. Convence-se que só na labiríntica aporia do dizer-não pode o caminho redobrar-se em folgas-rasgos de sentido e, assim, desabrochar-se no fundo de tudo. Nunca afirmar o caminho, negá-lo sempre e sempre em consonância com a abertura de portas que desembocam em janelas mais pequenas, depois em ideias pop-up, que ao desaparecerem se metamorfoseiam em novas visualizações, palavras-chave, caixas em atualização, toda uma mancha gráfica em hiper-afunilamento. Ainda levantado, questiona-se uma vez mais Serei capaz?, desejando evocar o que trans-vê e projetá-lo em palavras caleidoscópicas. O funil é o texto, já os morfemas trans-lúcidos que se projetam à velocidade da luz de presença não são mais do que notas de rodapé. À mão. Como areia nos dedos. Existem justamente porque são invisíveis. Meio-existem. Parece que se deixou ficar prostrado em frente ao ecrã, ainda. Qual fantasma-jet-lag. Isto, diz ele, é uma projeção. Uma dor adiada.

 

E ali fica, aqui, a refletir-se no espelho do Mundo, num diabólico arrastamento em contida submissão. O nosso herói perdedor, olhar fixo no tempo, está aqui, ou seja, está ali, no Mundo-precipício que é combustão extemporânea, e para isso não há cura. Diz-se. E depois pergunta-se, meio-decidido. Mas não se consegue responder. Recorda os Amigos que o ensinaram, ao longo do funil invertido que tem sido a sua vida, que o que dói às aves não é o serem atingidas, mas que, uma vez atingidas, o caçador não repare na sua queda, parecendo-se com Daniel Faria. Senta-se num ímpeto, levanta-se noutro, petrifica-se por fim de encontro a uma das janelas por fechar, olhos pregados num dos horizontes possíveis, a tentar desenredar a infinitude de linhas que ficaram por coser em 2003, em 2006, em 2010, em 2012, em 2014, nos ontens todos em fila de espera. Re-relembra os autores para quem a vida, enquanto Vida, livre de espíritos livres e outras pré-determinações, sempre se pareceu com a Morte. Espaço des-preenchido e impreciso. Ao mesmo tempo ausência e concavidade. Ao mesmo tempo falha e falta. Daltonismo. O futuro é quando?, imagina, quase ecoando Beckett (aqui trans-citado por Vila-Matas), para depois sussurrar Não, nunca, jamais, não... Preocupa-se com as vidas que passam ao lado dos que querem vivê-las, nunca os atravessando. O tabuleiro muda, de facto, mas muito lentamente. Chama-lhe micro-terrorismo. E graceja.

 

 

Azars Poetica (1)

Em 1896, Sylvester H. Roper, inventor da epónima bicicleta-a-vapor, morreu de ataque cardíaco durante um teste de velocidade, ao vivo, que resultou numa catastrófica colisão. Desconhece-se se a colisão causou o ataque cardíaco ou se o ataque cardíaco causou a colisão. Teatro.

 

Tal como na novela “Oblómov” do escritor russo Iván Goncharov (ibid.), onde os habitantes de uma aldeia observam a vida que passa ao seu lado, como um rio contemplado da margem. (ibid. ibid.) Ou tal como os heróis de Paasilinna, que atravessam a Europa toda para se irem matar a Portugal (Rakkauden tunne on kuin aurinko molemmin puolin). Assim desiste ele da janela, quadrada, preta, fundo preto, e abre a seguir a boca de vontade. Recusa-se a dormir sobre o leite derramado. Prefere bocejar. Como se encarnasse de repente um dos seus Amigos artisto’cratas, em divãs estendidos, bebericando infusões soporíferas, os ombros em soberba tensão, a boca semi-aberta a mimar êxtase. Usa as lágrimas que lhe caem grossas como lubrificante de sorriso. Faz nada. Auto-esquece-se.

 

É esse o seu último reduto de resistência.

 

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